Leiam nossa carta aberta
Carta aberta do grupo de estudantes do mestrado em Ciência Política
Prezados(as) colegas de curso, professores(as) e demais membros da comunidade acadêmica.
Quem nos conhece, sabe o quanto nosso grupo valoriza a Universidade de Brasília e a importância que a mesma tem para a sociedade brasileira. Além disso, as pessoas que acompanham este caso de perto têm consciência de que não guardamos sentimentos de ódio e muito menos de idolatria a nenhum professor ou professora.
Qual é o nosso objetivo?
Esta pergunta foi feita no primeiro dia em que nos reunimos para discutir alguma possível atitude quanto à situação que presenciamos em sala de aula. A resposta de todos os colegas foi que deveríamos colocar este problema para o Instituto de Ciência Política – IPOL.
Nós presenciamos uma situação inaceitável, todos sabiam que o silêncio seria muito mais confortável do ponto de vista prático. Mas em nenhum momento cogitamos recuar porque aquele não era um problema pessoal nosso, era uma questão que a UnB precisaria enfrentar, cedo ou tarde. De posse de um compromisso inabalável por uma universidade de qualidade, nosso grupo não titubeou em cobrar uma posição da Universidade de Brasília.
Levamos a questão para a Diretora do IPOL e para o Coordenador da Pós-graduação porque sabíamos que era responsabilidade deles apurar os fatos, e não nossa. Nossa responsabilidade se limitava a comunicar o ocorrido e pedir providências. Depois vieram a Comissão da Pós-graduação e o Colegiado do IPOL, e neste momento percebemos que estávamos transitando da posição de vítimas para a de algozes, após termos denunciado os fatos ocorridos em sala de aula.
Decidimos dar um passo adiante e levar o debate para a reitoria da universidade. O Reitor recebeu a denúncia e prometeu dar o devido encaminhamento.
A imprensa surgiu e fizemos questão de agir de maneira transparente diante da sociedade brasileira, que financia a universidade pública e exige saber o que ocorre na mesma. Oferecemos depoimentos, documentação e serenidade para não exercitar pré-julgamentos que pudessem atropelar o processo de apuração dos fatos.
Tivemos altos e baixos da cobertura da mídia. Em muitos momentos tentaram transformar o episódio todo em uma tragicomédia digna de folhetim pautando uma suposta batalha entre Gustavo Amora e Paulo Kramer. Em outros momentos, a mídia cumpriu muito bem o seu papel de apresentar para a sociedade o drama de um grupo estudantes que decidiu denunciar seu próprio professor sabendo o preço que iria pagar por se levantar contra a ordem estabelecida.
Nós sabemos o quanto este processo tem sido doloroso para todos e, principalmente para o professor Kramer, que acabou por se tornar vítima das suas próprias declarações, que agora estão sujeitas ao escrutínio público.
Entretanto, como pessoas que acreditam em algum tipo de unidade orgânica para toda a humanidade, nós manifestamos uma mensagem de força e coragem para que ele possa superar este momento difícil, e, assim como nós, consiga crescer e aprender com isto tudo.
O momento agora é de olhar para frente, discutir com seriedade a questão e buscar novas frentes para combater a discriminação na Universidade de Brasília. Não vamos olhar para trás! O que o professor falou ou deixou de falar é passado, cada um é responsável pelo que fala e o inquérito administrativo conduzido pela UnB dará uma resposta sobre o caso. Isto é responsabilidade da instituição. Nós, como estudantes, temos o olhar focado no presente e no futuro.
O conflito é desgastante, mas envolve muitas pessoas que antes se omitiam, tanto para apoiar nosso grupo quanto para desqualificar nossa denúncia. Isto para nós é uma vitória!
O fato é que nos últimos dias temos recebido muitas mensagens de apoio, de pessoas de todo o Brasil que nutrem o mesmo compromisso que o nosso grupo defende. Isto significa que o futuro promete um debate muito mais consistente sobre racismo partindo das universidades brasileiras. Diante disso, o nosso grupo se compromete a criar um núcleo de debate sobre discriminação no âmbito da Ciência Política, aberto a toda a comunidade.
A princípio, atuaremos em um nível não-institucional, mas caso haja interesse por parte da universidade de incluir este debate na sua esfera acadêmica de maneira não-subalterna, nós teremos todo o interesse em contribuir.
A política de cotas para negros e negras é um grande exemplo de que a Universidade de Brasília tem uma preocupação progressista com a inclusão e isto supera quaisquer incidentes isolados. Basta agora trazer esta preocupação para o cotidiano da UnB.
O nosso grupo acredita em uma universidade de vanguarda, que reflita os conflitos e anseios da sociedade brasileira e continuaremos colaborando neste sentido.
Um grande abraço a todos e desejamos muita energia positiva para todos que estejam envolvidos nesta discussão.
Carlos Augusto Mello Machado
Caroline Soares Santos
Danusa Marques
Gabriela Oliveira de Andrade
Gustavo Freitas Amora
Janine Mello dos Santos
Marcelo Gonçalves da Silva
Marconi Fernandes de SousaHelena Cristina Máximo

6 Comments:
Gostaria de manifestar meu apoio ao grupo de mestrandos da UnB pela corajosa e democrática posição tomada diante da atitude do professor Kramer. Como negra e estudande do curso de especialização em Ciência Política da UnB, fiquei chocada como um docente pôde expressar uma visão preconceituosa num ambiente acadêmico de nível tão elevado. Após ler a notícia do correio, pensei que tivesse sido apenas um mal-entendido, mas tive informações de que esse comportamento é recorrente da parte do professor em apreço. Espero que esse fato seja prontamente apurado e esclarecido pela UnB e mesmo pela justiça brasileira, para que sirva de exemplo para a sociedade. Quero cumprimentar o grupo também pela excelente idéia da criação de grupo de discussão sobre discriminação. Caso a idéia efetivamente se concretize, tenho o maior interesse em participar.
3:47 PM
Não entendi bem o que vcs pretendiam dizer com o seguinte trecho: "Não vamos olhar para trás! O que o professor falou ou deixou de falar é passado, cada um é responsável pelo que fala e o inquérito administrativo conduzido pela UnB dará uma resposta sobre o caso. Isto é responsabilidade da instituição. Nós, como estudantes, temos o olhar focado no presente e no futuro."
Não consigo imaginar como "olhar para frente" sem "olhar o passado". Este acontecimento foi (e continua sendo) fundamental para a discussão sobre o racismo. Eu realmente acho que o que o professor falou ou deixou de falar NÃO é passado. É um caso se repetirá enquanto não falarmos do passado! O ocorrido deve sim servir de exemplo para todos, e isso não ocorrerá enquanto não lembrarmos cotidianamente do dele.
4:30 PM
A Carta Aberta está bastante sóbria, mas não sei se condiz com toda a verdade.
"Qual é o nosso objetivo?
Esta pergunta foi feita no primeiro dia em que nos reunimos para discutir alguma possível atitude quanto à situação que presenciamos em sala de aula. A resposta de todos os colegas foi que deveríamos colocar este problema para o Instituto de Ciência Política – IPOL."
Vocês, até onde sei, não tinham UM objetivo. Tinham DOIS.
1) Levar ao IPOL a situação ocorrida em sala;
2) Pagar a disciplina com outro professor (seja em outra turma ou que o professor fosse afastado).
Vocês não estão apenas fazendo isso em prol de uma sociedade digna e igualitária, você estão defendendo o SEU direito e, por reflexo, o direito da sociedade.
Os passos que foram tomados foram muito mais motivados pela negativa da abertura da segunda turma do que o vislumbre da punição de um professor perseguindo seus erros pretéritos, como foi dito na carta.
Seria muito possível (não provável) que o movimento perdesse quase toda a força se nada fosse feito conta Kramer e vocês tivessem a Turma B com um professor voluntário. Tudo bem, seria uma atitude menos nobre do grupo, mas acredito que ninguém do grupo quer ser mártir de uma causa. Infelizmente o grupo está sendo empurrado para essa direção, mesmo porque estão completamente vulneráveis às retaliações que mais atingem os alunos: notas.
Desculpem a sinceridade - é assim que eu vejo a situação -, mas, a menos que seja aberta uma outra turma e seja ministrada por um professor voluntário e favorável ao seu pedido, será difícil obter uma aprovação dessa disciplina ou mesmo uma avaliação isenta (executada por professor que tenha como colega de trabalho o professor em questão ou por um docente que se sinta atingido por pertencer ao Instituto ora exposto).
Torço por vocês e espero que suas demandas sejam atendidas e não saiam prejudicados. São os que tem mais a perder, mesmo com uma causa tão justa.
5:05 PM
Vou ser o mais breve possível...
Tudo isso é loucura e vai logo se transformar em uma verdadeira caça as bruxas. Infelizmente, no Brasil as pessoas ainda podem ser processadas por "crimes do pensamento" (engana-se quem pensa que a ditadura acabou).
Não conheço esse professor, mas e se ao invés de preconceitos ele tiver conceitos “errados”? Na maioria das vezes esse é o caso.
Não acho que há preconceito na Unb. Lá é um dos raros lugares em que as pessoas (algumas) ainda pensam. Quem pensa geralmente não tem preconceito, tem conceitos. E esses conceitos “racistas” (culturais seria mais adequado...) podem ser todos muito bem fundamentados na cabeça do tal professor.
Será que ele está errado? Será que ele tem motivos para ter a opinião que tem ou seria ele um louco nazista? Seria realmente preconceituoso afirmar que ele é louco-nazista sem antes ouvir os argumentos dele... Mas como nós vamos fazer isso, se ele não pode mais se expressar abertamente?!
Muito se fala sobre “racismo”, “preconceito”, etc, como se fossem coisas possíveis de serem “solucionadas”. É da natureza humana fazer julgamentos dos outros e isso nunca vai, e nunca deve, mudar. O que se pode fazer é discutir sobre como esses julgamentos se formam e são construídos na cabeça das pessoas. Mas isso nunca vai ser discutido; primeiro porque as pessoas sempre vão levar para o lado pessoal (se fazendo de vítimas, tanto quem julga quanto quem é julgado); segundo porque estão todos sendo silenciados a esse respeito, em nome do "politicamente correto"!!! Nunca vai haver um debate público e sério sobre esse assunto se as coisas continuarem assim. No máximo teremos uma gigantesca hipocrisia de "racistas" velados... O que é muito pior, se você pensar bem... Enquanto os “racistas” ainda mostram as caras, ainda é possível evitá-los, ainda há a chance de haver outra opção para professor. Mas e quando todos os “racistas” se esconderem? Como se defender de um inimigo invisível sem gerar intrigas? Penso que seria melhor para todos se as pessoas fossem minimamente honestas a esse respeito. Mas isso é impossível, já que agora racismo é crime...
Tudo isso, incluindo as cotas, é uma excelente maneira de polarizar a universidade em torno de uma coisa totalmente sem importância se comparada com outros problemas da nossa sociedade. É a velha história de dividir para conquistar... Enquanto nós infinitamente discutimos o “racismo”, o país está sendo entregue à verdadeiros sanguessugas, e a UnB, que deveria ser uma guardiã da nossa sociedade, se cala.
Ganharam as cotas. Aproveitem enquanto podem, porque desse jeito a UnB não dura muito...
P.S.: Admito que não tenho coragem de por meu nome. Afinal, "racismo" agora é crime, e apesar de eu não ser racista, quem sabe o que se passa na cabeça das pessoas quando elas lêem isso? Prefiro ficar anônimo...
9:12 PM
Apoio a atitude do grupo em relação ao professor e apoio todas as atitudes que têm por objetivo a transformação da história e do mundo para melhor! D. Paulo Evaristo Arns bem disse:"os povos que não podem ou não querem mudar a história estão condenados a repetí- la".
A escravidão - branca ou negra - é uma das vergonhas que a nossa história carregará até o fim dos dias. Hoje, ainda nos defrontamos com os seus resquícios por meio de discursos como o do professor Kramer.
Utopismo ou não, quero acreditar que somos "civilizados" e "esclarecidos" o bastante para dar continuidade a processos de exclusão tão rudimentares como o racismo! Se nós, brasileiros, temos a chance de banir a escravidão simbólica - cujo pendor máximo é o discurso racista - ou de reparar as suas conseqüências, por que não o fazer com o suporte legítimo da lei?
O grupo certamente está sujeito à sanções e constrangimentos por parte do profesor envolvido no caso, bem como de seus amigos e admiradores vinculados à UnB, no entanto, há que se guardar o exemplo de ousadia que deu aos estudantes comprometidos com a mudança social, a qual só será possível quando todos - brancos, negros, pobres, ricos, homens e mulheres - estiverem dispostos a superar preconceitos e tabus que nos distanciam dos ideais de igualdade e justiça social, elementos pelos quais alguns de nós têm fome, sede e pressa!!!
5:12 PM
Também gostaria de declarar o meu mais sincero apoio aos mestrandos diante desta situação desagradável e que não pode mais se repetir. Como aluno de Ciência Política da UnB, tenho acompanhado de perto os desdobramentos do caso e digo que não se tratou de nenhuma surpresa tomar conhecimento dos comentários proferidos pelo referido Professor. O seu histórico em salas de aula - as quais freqüentei -já diz muito sobre ele.
Só espero que o aumento das tensões não acabe por isolar os alunos, tornando-os mais frágeis diante de uma estrutura conservadora que cerca a situação. Por isso, gostaria de informar aos alunos de graduação e pós-graduação da UnB que concordam com a iniciativa dos mestrandos que uma carta de apoio à ação já está recebendo assinaturas. Basta enviar uma mensagem para sarasfreunde@yahoo.com.br, para solicitar uma cópia do texto e enviar o nome completo e o curso realizado na Universidade.
12:10 PM
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